2025/03/27
Grande Paulo Raimundo
GRANDE Paulo Raimundo!
Encostou o terrorista nazi às cordas!
A não perder!
Só isto?
É tudo?
Ó orelhas, perdeste o fôlego?
Com a saúde no estado em que está, a inflação, a educação, a habitação, o país, as vigarices do rural, os andrébistas e os trumpistas, o órelhas esteve 10 minutos a tentar pôr na boca do entrevistado as suas palavras. Não conseguiu.
Somos pela Paz, sempre fomos e continuamos a ser. Não trocamos saúde, habitação, salários e pensões por armas e guerras. Nunca trocámos e nunca trocaremos. O PS, o PSD, O Livre, o BE que aplaudiram na AR os deputados da Rada não o poderiam fazer na Rada porque os seus partidos estão proibidos. Nós não somos hipócritas. Quem os aplaudiu sancionou o banimento dos seus congéneres.
GRANDE Paulo Raimundo!
Obrigado 😉
2025/03/22
EUA: Entre a Manipulação e a Imparcialidade Homérica
(Viriato Soromenho-Marques, Carlos Fino Facebroncas, 2025/03/20)
Uma das mais dolorosas aprendizagens durante estes mais de três anos de guerra na Ucrânia tem sido a de me confrontar com o trágico declínio da honorabilidade académica e do brio intelectual, tanto nas instituições universitárias como nos meios de comunicação social.
É com tristeza que tenho acompanhado o modo como professores, investigadores e jornalistas têm violado o imperativo de “imparcialidade homérica”, expressão cunhada por Hannah Arendt para definir uma virtude específica da tradição espiritual do Ocidente: a capacidade de analisar com objetividade a realidade, a natureza das situações, e os motivos dos agentes coletivos e individuais, mesmo no quadro de conflitos violentos.
O exemplo indicado por Arendt foi o do modo como Homero, na Ilíada, tratou as principais personalidades envolvidas nesse grande drama épico, escrito na aurora da literatura europeia: o príncipe troiano, Heitor, e o herói grego, Aquiles. O imortal autor grego não menorizou nem diabolizou Heitor, nem idolatrou Aquiles. Pelo contrário, procurou reconhecer neles as qualidades humanas e os motivos que dirigiam a sua conduta. Isso significa estar atento aos dados reais, aos factos elementares, abstraindo-nos dos preconceitos.
Na guerra da Ucrânia nada disso aconteceu. A invasão militar russa, libertou no Ocidente um tsunami propagandístico que há muito esperava que ela acontecesse. Slogans correram a imprensa de todo o mundo, nomeadamente, a frase “invasão não provocada”. Riscar a história, significa colocar a invasão num plano estritamente jurídico e moral.
Se uma agressão não tem causas, isso significa que se tratou do ato de um agente malévolo. Ao aceitarem a tese de uma invasão fora da esfera objetiva e material da causalidade, muitos cientistas sociais juntaram-se ao registo ululante e propagandista de uma nova vaga de russofobia, que há muito estava a ser preparada. Já em 2014, Kissinger acusava a crescente diabolização de Putin nos meios de comunicação social americanos como sendo o pior exemplo da ausência de uma política realista dos EUA perante a Rússia. Na verdade, a russofobia, velha presença na cultura ocidental, foi intensificada nos últimos quinze anos. Disso são prova os filmes e séries, onde os russos são sempre tratados como criminosos.
Perante a guerra, esta ou qualquer outra, o que se espera de um intelectual é o exercício da sua capacidade analítica, antecipada pela procura dos dados empíricos que são as fontes primárias que alimentam o pensamento crítico.
Nada disso sucedeu. Como nos sistemas totalitários, formou-se no Ocidente uma cultura de massa vigilante para com a dissidência. Na imprensa ocidental, vozes desafinadas, jornalistas e colaboradores, mesmo académicos prestigiados, foram afastados. Nas universidades, fez-se caça às bruxas. Carreiras profissionais foram interrompidas. O objetivo de quem domina e manipula consiste em manter o controlo da narrativa binária: “ou és amigo, ou és inimigo”. Para isso, seria preciso esconder os factos, se não fosse possível destruí-los.
Agora, quando a guerra se encontra num momento tão sangrento como decisivo, a necessidade de mergulhar nas fontes, de conhecer os acontecimentos, de ler os documentos, é mais necessária do que nunca. Nesse sentido, os norte-americanos sempre se portaram melhor do que os europeus. Enfrentaram com mais coragem os obstáculos, também imbuídos pelo imperativo ético de denunciarem os abusos praticados pelo seu país para ocultar as suas próprias responsabilidades. São três documentos de autores norte-americanos, aquilo que gostaria de propor ao leitor. Estes três contributos são de uma riqueza extraordinária, e são acessíveis a todos os que a eles queiram aceder. Indispensáveis para a formulação de um juízo esclarecido e livre.
Primeiro. Conferência de Jeffrey Sachs no Parlamento Europeu. No dia 21 de fevereiro, por convite do deputado alemão, conde Michael von der Schulenburg (da Aliança Sahra Wagenknecht), um dos mais famosos e influentes economistas mundiais veio falar ao Parlamento Europeu, até hoje uma das mais belicistas instituições da UE. Durante mais de hora e meia, Jeffrey Sachs falou com conhecimento de causa, profunda sabedoria e notável eloquência sobre a sua experiência vivida junto de responsáveis políticos dos EUA e da Rússia, além de outros países do leste europeu, durante os mais de 30 anos que precederam a guerra. Testemunhou com veemência o efeito devastador de uma política externa dos EUA, onde o excesso de vontade de poder contrastava com a falta de competente prudência (1).
Segundo. Uma Cronologia da Guerra da Ucrânia. Dois escritores e jornalistas independentes americanos – Matt Taibbi e Greg Collard – produziram um documento que é um tesouro documental para historiadores profissionais e amadores. Inseridas nessa cronologia, encontram-se 114 documentos – ofícios desclassificados, filmes, gravações áudio, cópias de declarações oficiais, etc. -, desde a célebre reunião de 9 de fevereiro de 1990 (quando os EUA prometeram à URSS de Gorbachev que a NATO não se estenderia para Leste…) até à atualidade. Descarregando estes materiais, o leitor poderá construir o seu próprio arquivo sobre o sombrio rasto deixado pelas reais causas deste conflito (2).
Terceiro. As responsabilidades do Ocidente. O terceiro e último documento é um ensaio breve, mas muito esclarecedor, de um investigador independente, Benjamin Abelow. Escrito no início do conflito, este ensaio recolhe uma pertinente informação sobre os numerosos esforços de diplomatas, políticos e académicos norte-americanos que tentaram evitar o alargamento da NATO e a degradação crescente das relações russo-americanas que tal implicaria. Muito bem assente nos dados empíricos, o ensaio partilha com os leitores o pensamento de autores de grande relevância, entre os quais sobressaem os seguintes: John Mearsheimer, Stephen F. Cohen, Richard Sakwa, Gilbert Doctorow, George F. Kennan, Chas Freeman, Douglas Macgregor, e Brennan Deveraux (3). Trata-se de uma oportunidade única de alargar horizontes. Sobretudo, o leitor pode encontrar aqui instrumentos que o imunizam contra a poderosa máquina de desinformação e manipulação, que considera a liberdade do espírito crítico como o seu principal inimigo.
Matt Taibbi and Greg Collard (07 03 2025), Timeline: The War in Ukraine.
Benjamin Abelow, How the West Brought War to Ukraine. Understanding how U.S. and NATO Policies led to Crisis, War, and the risk of Nuclear Catastrophe, Great Barrington, Siland Press, 2022.
2025/03/18
Sebastião, O Mouro de Bruxelas
(Tiago Franco, Facebroncas,2025/03/17)

Sou um grande admirador da coragem de Sebastião Bugalho. Assim de repente pensarão que estou a brincar mas não, até porque raramente brinco com assuntos de estado. O Sebastião faz-me lembrar aquele cantor que anima as manhãs do Goucha ou do Baião. Da convicção que mete no que faz, na verdadeira festa que tenta trazer enquanto está em cima de um atrelado, a bater palmas ao playback e a animar umas velhinhas ali, no jardim municipal do Crato, e em casa, já acamadas e sem braços fortes que as façam chegar ao comando da televisão.
Não é bem o disparate sem sentido mas sim a forma decidida com que ele é dito ou feito que, verdadeiramente, me apaixona. Em tempos tive um colega assim. Falava alto, não sorria, dizia tudo com uma certeza que convencia logo pela entoação. Maior parte das vezes atirava ao lado mas a pose de estado não deixava espaço para questões.
O Sebastião é dessa cepa. Daquela gente que acredita muito naquilo que diz e raramente tem dúvidas. Afirmar, aos 29 anos e num país de trabalhadores tendencialmente pobres, que se fartou de trabalhar, é um acto arriscado. Para não dizer estúpido.
Em tempos que já lá vão, o amigo Bugalho tinha um CV todo porreiro no linkedin. Entretanto, provando que é de facto um rapaz esperto, apagou-o (pelo menos eu já não o consigo ver) para precaver males maiores.
O Sebastão comecou a escrever artigos de opinião no "I" enquanto fazia uma licenciatura na Católica. Foi esta a sua entrada no mercado de trabalho aos 19 anos. Diz, Vitor Raínho, o director do "I" nessa altura:
"O então diretor do jornal, Vítor Rainho, confirma ao Observador que Bugalho começou por escrever artigos de opinião que começou a enviar-lhe e, mais tarde, acabou por estagiar no jornal: “Na altura em que ele mandava textos de opinião não sabia que era filho da Patrícia [Reis, que tinha trabalhado com Vítor Rainho no passado]. Um dia ela ligou-me a pedir para ele estagiar no jornal para ver se se desencantava com o jornalismo".
Maior parte das pessoas que concorrem a empregos mandam CVs, preenchem formulários, esperam por respostas que, não raras vezes, não aparecem. O Sebastião, que se fartou de trabalhar, entrou nos jornais com um telefonema da mãe.
Não vou fazer o papel hipócrita de desprezar as cunhas e muito menos as ajudas que um pai ou uma mãe possam dar a um filho. Tenho sobre isso uma opinião baseada naquilo que a vida me ensinou. Nunca tive uma cunha para absolutamente nada e, por variadíssimas vezes, escolhi o caminho mais demorado e tortuoso para as evitar. Isso teve um preço que hoje não sei se valeu a pena pagar. Portanto, se a mãe o ajudou e a rede de contactos dos pais o empurraram precocemente, entre o CDS e os jornais, pois tudo bem. O rapaz aproveitou as oportunidades, vestiu um fato, aprumou o discurso de velho do restelo e fez-se à vida.
A culpa de estar em Bruxelas não é dele, é vossa que votam em gente desta.
Agora...há que assumir. É apenas isso. Nada de conversas de proletariado e tal. É que isso enerva, Sebastião. Gente com muito mais talento do que os Bugalhos desta vida nunca chegam sequer a ter uma oportunidade que não seja em forma de um recibo verde. É por respeito a essa gente que o Bugalho, agora eurodeputado com um salário que 97% dos portugueses nunca viram, deve dizer menos disparates e viver o privilégio que lhe foi concedido com alguma discrição. Não é preciso ter vergonha do berço, basta que não se tente passar por aquilo que nunca foi.
Quando o Sebastião mostra a sede de poder e a miragem de um dia chegar a primeiro-ministro (algo em que acredito, sinceramente), fá-lo com um anúncio solene cheio de nada. "Entrevistei 5 primeiros-ministros e por isso sei o que devem ter e o que não devem ter os responsáveis do cargo". É uma frase ao nível de "já vi 300 desempates por penaltis, sei que uma baliza tem 7 metros e nenhum homem chega a 3 metros, logo, matematicamente, sei bem como bater um penalti à malha lateral e nunca falhar".
Quando nos diz que sabe perfeitamente quem apoiar para esse cargo (Montenegro) está, no fundo, a explicar que tal como no seu exemplo, o "fartar de trabalhar" nos corredores dos favores e na dependência dos partidos, é o "que devem ter" os homens e mulheres que, neste país, querem chegar a um cargo relevante de decisão política.
Nunca me incomodou que o Sebastião fosse um deputado em tenra idade. Aliás, acho isso uma enorme vantagem para a vida no parlamento europeu. O que sempre me preocupou foi ver aquele rapaz, num corpo novo com o discurso bafiento de outros tempos. E perceber que alguém que, durante meses e anos, fez fretes ao PSD no comentariado, acabou por ser recompensado. Alegadamente, claro. Pode ter sido apenas coincidência. Notem ainda na rapidez com que ele percebeu que nem CDS, e muito menos Chega, o colocariam onde ele queria estar.
Sebastião é mais um, entre uma enorme linhagem de privilegiados, que entram nos corredores da política pela porta grande. Que conseguem empregos com telefonemas, que nasceram perto de gente que conhece gente, que aliam um discurso fluente a uma gritante falta de princípios. Que mudam as convicções consoante o programa que, entendam, são essencialmente eles próprios e as suas ambições. Não há nada que Sebastião possa ou queira fazer por quem nele votou. Daqui a 20 anos terá um CV cheio de nomeações e saltos entre cargos do partido.
Percebo a narrativa, percebo que queira dar a imagem de um homem que subiu a pulso, percebo que se queira mostrar como um de nós. Mas como nada disso é verdade e como, ele próprio perceberá, a realidade política portuguesa já está sobrecarregada de mentiras e disparates, porque não se remete apenas ao silêncio enquanto vai tecendo as linhas do próximo salto?
Trabalha menos Sebastião.
2025/03/13
O que Disse Putin Sobre a Proposta de Cessar Fogo
(RT, 2025/03/13)
A Rússia está pronta, disse o presidente, sublinhando que tal acordo “deve conduzir a uma paz a longo prazo”
O Presidente russo, Vladimir Putin, confirmou na quinta-feira que a Rússia está pronta para discutir um cessar-fogo, mas que os termos de um acordo desse tipo devem ser esclarecidos. Putin disse em julho de 2024 que Moscovo não estava interessada em pausas de curto prazo, mas estava pronta para se envolver na abordagem das causas do conflito.
Washington e Kiev aprovaram uma trégua temporária de 30 dias após uma reunião entre as respetivas delegações na Arábia Saudita na terça-feira.
Eis uma transcrição completa da resposta do Presidente russo:
Antes de avaliar como vejo a disponibilidade da Ucrânia para um cessar-fogo, gostaria de começar por agradecer ao Presidente dos Estados Unidos, Sr. Trump, por ter dado tanta atenção à resolução do conflito na Ucrânia.
Todos temos problemas suficientes para lidar. Mas muitos chefes de Estado, o Presidente da República Popular da China, o Primeiro-Ministro da Índia, os Presidentes do Brasil e da República da África do Sul estão a passar demasiado tempo a tratar desta questão. Estamos gratos a todos eles, porque isto visa cumprir uma missão nobre, uma missão para pôr fim às hostilidades e à perda de vidas humanas.
Em segundo lugar, concordamos com as propostas para cessar as hostilidades. Mas a nossa posição é que este cessar-fogo deve conduzir a uma paz a longo prazo e eliminar as causas iniciais desta crise.
Agora, sobre a disponibilidade da Ucrânia para cessar as hostilidades. À primeira vista, pode parecer uma decisão tomada pela Ucrânia sob pressão dos EUA. Na verdade, estou absolutamente convencido de que o lado ucraniano deverá ter insistido nisso (cessar-fogo) com os americanos com base na forma como a situação (na linha da frente) se está a desenrolar, nas realidades no terreno.
E como é que isso se está a desenrolar? Estou certo de que muitos de vós sabem que ontem estive na Região de Kursk e ouvi os relatórios do chefe do Estado-Maior, do comandante do grupo de forças "Norte" e do seu adjunto sobre a situação na fronteira, especificamente na área de incursão da Região de Kursk.
O que está a acontecer aí? A situação ali está completamente sob o nosso controlo, e o grupo de forças que invadiu o nosso território está completamente isolado e sob o nosso total controlo de tiro.
O comando das tropas ucranianas nesta zona foi perdido. E se nas primeiras fases, há literalmente uma ou duas semanas, os militares ucranianos tentavam sair de lá em grandes grupos, agora é impossível. Estão a tentar sair de lá em grupos muito pequenos, duas ou três pessoas, porque está tudo sob o nosso total controlo de fogo. O equipamento está completamente abandonado. É impossível evacuá-lo. Ele permanecerá lá. Isso já está garantido.
E se nos próximos dias houver um bloqueio físico, ninguém poderá sair. Haverá apenas dois caminhos. Render-se ou morrer.
E nestas condições, penso que seria muito bom para o lado ucraniano conseguir uma trégua de, pelo menos, 30 dias.
E nós somos a favor disso. Mas há nuances. Quais são? Em primeiro lugar, o que faremos com esta força de incursão na região de Kursk?
Se pararmos de lutar durante 30 dias, o que é que isso significa? Que todos os que lá estão se vão embora sem lutar? Devemos deixá-los ir depois de terem cometido crimes em massa contra civis? Ou será que a liderança ucraniana lhes ordenará que deponham as armas? Simplesmente rendam-se. Como é que isso vai funcionar? Não está claro.
Como serão resolvidas outras questões em toda a linha de contacto? São quase 2.000 quilómetros.
Como sabem, as tropas russas estão a avançar em quase toda a frente. E há operações militares em curso para cercar grupos bastante grandes de forças inimigas.
Esses 30 dias — como serão utilizados? Para a Ucrânia continuar com a mobilização forçada? Para receber mais fornecimentos de armas? Para treinar unidades recém-mobilizadas? Ou nada disto terá lugar?
Como serão resolvidas as questões de controlo e verificação? Como podemos ter a certeza de que nada disto vai acontecer? Como será organizado o controlo?
Espero que todos entendam isto ao nível do senso comum. Todas estas são questões sérias.
Quem dará ordens para interromper as hostilidades? E qual é o preço desses pedidos? Consegue imaginar? Quase 2.000 quilómetros. Quem determinará onde e quem violou o potencial cessar-fogo? Quem será o culpado?
Todas estas são questões exigem um exame minucioso de ambos os lados.
Portanto, a ideia em si é a correta, e certamente que a apoiamos. Mas há questões que precisamos de discutir. Acho que precisamos de trabalhar com os nossos parceiros americanos. Talvez eu fale com o Presidente Trump. Mas apoiamos a ideia de pôr fim a este conflito através de meios pacíficos.
2025/03/02
A "Ameaça Russa"
A "Ameaça Russa".
(José Brás, in facebook, 2025/03/02)
No centro de toda a propaganda ocidental está a mantra da "Ameaça Russa", uma coisa que me é apresentada como verdade absoluta, realidade indiscutível, primado que não necessita argumentação, passe a redundância.
Vejamos.
A "Ameaça Russa" teria começado pouco depois de derrotada a "Ameaça Soviética", mas a realidade, o facto, é que quando acabou a "Ameaça Soviética", acabou também o Pacto de Varsóvia, o que não acabou foi a NATO, nascida anos antes do "temível" pacto e alegadamente criada para conter a "Ameaça Soviética".
Em finais do século XX, enquanto durou a apropriação privada da propriedade socialista soviética pelas máfias oligárquicas russas, houve sim uma tentativa russa de entrar para a NATO, Rússia essa que inclusivamente foi convidada a manter, e aceitou, uma missão diplomática na NATO em Bruxelas, até outubro de 2021, quando os EUA expulsaram 8 dos seus diplomatas dessa missão.
De finais da década de 90 do século passado até 2021, e apesar das confrontações entre a NATO e a Rússia, por interpostas geórgias, arménias, ossétias e abcásias, tudo lá longe dos nosso olhos, as fronteiras russas não se alteraram um milímetro. Já o mesmo não podemos dizer das fronteiras da NATO que, apesar das juras e promessas ocidentais feitas aquando do esboroamento da URSS, de que não se deslocariam uma polegada para leste, foram absorvendo os diferentes países europeus outrora integrantes do Pacto de Varsóvia, sempre democraticamente, sempre de acordo com os anseios dos povos desses países, e assim aproximando os mísseis norte-americanos, ao serviço da NATO, das até então mudas e quedas fronteiras russas.
É em 2014 que tem lugar o Euromaidan, um golpe de estado orquestrado pelos neocons norte-americanos, com a Srª Victoria "Fuck Europe" Nuland, mais a nossa inqualificável Ana Gomes a distribuírem sanduíches pelos revoltosos da praça maidan, dias mais tarde vitimas de fogo amigo, oriundo das janelas do hotel que eles próprios controlavam, e que deu lugar a uma escalada conducente à queda do presidente eleito em eleições justas e democráticas, a acreditar nos observadores da UE e da OSCE, que foram lá vigiar a coisa para evitar "boletins-borboleta", como os das famosas eleições norte-americanas do bush-gore.
Imaginam a santa Rússia a deixar a NATO cortar-lhe o acesso ao Mar Negro? Imaginam os EUA a sair da base naval de Guantánamo em Cuba como o Estado Cubano exige desde 1959? Esperem sentados.
E foi para não perder a base naval na Crimeia e com isso o acesso ao Mar Negro, que a Rússia rapidamente organizou um referendo onde os 80% de população russófona e russófila da Crimeia deram uma maioria democraticamente esmagadora à reintegração da Crimeia na Rússia. Nada que a NATO não tivesse já feito com o esfrangalhamento da Jusgoslávia ou a criação da Bósnia, se bem que aí nem referendo houve.
Foi também na sequência da tomada de poder pelos nazis ucranianos que as maiorias russófonas e russófilas do Donbass declararam a independência das repúblicas populares de Donetsk e Lugansk. E note-se que nem mesmo nesse já longínquo 2014 a Rússia "invadiu" o Donbass, pelo contrário, sentou-se com os ex-parceiros europeus mais os nazis ucranianos a negociar os tratados de Minsk que reintegrariam na Ucrânia as recém proclamadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, as quais nem a Rússia, então, reconhecia.
Em 2022, passados 8 anos sobre os acordo de Minsk, sem que a Ucrânia desse um só passo para a reintegração do Donbass como repúblicas autónomas, o constante aumento das confrontações ao longo da linha de separação, com os monitores de interposição da OSCE a ignorarem sistematicamente os ataques ucranianos a alvos civis no Donbass e a preparação de uma ofensiva ucraniana em grande escala contra aquelas repúblicas, a Rússia declara mortos os tratados de Minsk e invade a Ucrânia.
Viemos a saber, já em 2022, após a invasão Russa, pelas bocas dos mediadores europeus dos tratados, a então chanceler alemã Angela Merkel e o então presidente francês François Holande que os Acordos de Minsk foram apenas uma tentativa de dar tempo à Ucrânia para fortificar as Forças Armadas, por forma a reconquistar o Donbass, digo eu. Sobre quem terá posto fim aos acordos ou quem nunca pensou respeitá-los não há muito mais a dizer.
Já depois de iniciada a guerra, em Maio de 2022, em Istambul, é rubricado um acordo que, no fundamental, recolocava o conflito nos termos dos acordos de Minsk, com a Ucrânia a abandonar em definitivo a integração na NATO, a assumir um estatuto de neutralidade semelhante ao da Áustria, redução do exército a dimensões mínimas com garantias de segurança por parte da UE, EUA e Rússia.
No dia seguinte o Boris "Brexit" Johnson foi a Kiev informar Zelensky que a NATO não lhe poderia dar garantias de segurança nos termos do acordo rubricado em Istambul, mas que, se ele quisesse continuar a guerra, o Ocidente Alargado estaria com ele até ao fim e que, mais tarde ou mais cedo, a Ucrânia entraria na UE e na NATO.
Passados 3 anos e umas largas centenas de milhares de mortos de ambos os lados, a Ucrânia ainda não entrou para a NATO, ainda não integra a UE, a Rússia ocupa 1/5 da Ucrânia, o tio sam pôs o Zelensky na rua, o Mark "Os portugueses querem é vinho e não sei o quê" Rutte da NATO informa o Zelensky que tem de fazer as pazes com o Trump e que os EUA só estão a abrir uma porta para conversar com a Rússia e o Keith "Booths on the ground" Starmer reuniu uma dúzia de intrépidos guerreiros para alinhavar uma proposta de cessar fogo, proposta essa que, diga-se de passagem, já foi chumbada pelo Putin que continua a avançar, devagarinho, mas a avançar pela Ucrânia adentro e que diz que negociações sim, mas cessar fogo só depois de alcançado um acordo que conduza a uma paz longa, duradoura, que respeite as realidades no terreno e mutuamente interessante para t o d a a Europa.
Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o PCP disse clara, cristalina e taxativamente que a resolução do conflito tinha de ser política e alcançada na mesa de negociações. Passados 3 anos e várias centenas de milhares de mortos a realidade prova que os partidários da paz sempre tiveram razão e os partidários da guerra, depois de semearam milhares de mortos estão prestes a dar razão aos partidários da paz.
Regressando ao embuste da Ameaça Russa que nos querem fazer digerir.
Alguém consegue acreditar que uma Rússia que vai da fronteira com a Ucrânia até à fronteira com o Alasca, com recursos minerais, gás e petróleo para dar e vender, precisa de invadir alguma coisa para ter mais de qualquer coisa?
Alguém consegue acreditar que um país com 145 milhões de habitantes iria arriscar uma guerra contra uma economia 10 vezes maior com 510 milhões de habitantes?
Alguém consegue acreditar que uma Rússia que anda há 3 anos para atravessar o Donbass, tem capacidade para ameaçar uma Europa que vai da Polónia ao Cabo de São Vicente?
Uma coisa é uma potência militar com 145 milhões de habitantes e um PIB de 2 milhões de milhões de $US vencer uma Ucrânia com menos de 38 milhões de habitantes e um PIB de 180 mil milhões, outra coisa é ameaçar um PIB de 19 milhões de milhões e 510 milhões de europeus.
É a realidade dos números.
Quantas vezes a Rússia chegou ao centro da europa? Duas, uma atrás do Napoleão e outra a correr atrás do Hitler.
Quantas vezes é que um país europeu foi chatear o urso russo? Deixando de fora as invasões napoleónicas e a guerra da Crimeia, começada e perdida pelo império russo, resta-nos a I Guerra Mundial, que acabou com a revolução soviética a por fim ao milenar império russo, as intervenções britânica, francesa e norte-americana, a ocidente e oriente na sequência do triunfo bolchevique, seguida duas décadas depois pela invasão nazi.
É a realidade histórica.
Não será a Rússia um país com medo de uma europa central que sazonalmente o invade?
2025/01/05
Queixam-se de quê?
A clique novembrista que sequestrou o 25 de Abril, assaltou os órgãos de poder e nos governa segundo uma forma de democracia pervertida e aleijada acordou revoltada, indignada, furibunda: os russos bombardearam a embaixada de Portugal em Kiev! É preciso vingar-nos, devolver-lhes em dobro o poder de fogo dos nossos mísseis, organizar uma missão patriótica como tão bem sabe o almirante candidato a salvador da pátria, desta feita colocando-se intrepidamente na vanguarda da poderosa frota de submarinos do Portas, quem sabe os deuses possam ser benévolos e consiga chegar à Ponta de Sagres – mas fica a intenção, Zelensky jamais a esquecerá. Enfim, há que fazer com que o maléfico Putin, o diabo em forma de gente, meta a viola no saco e engula as suas prosápias.
É fundamental recuperar os clarins de Aljubarrota, restaurar o quadrado invencível, ressuscitar a D.ª Brites, a padeira, para malhar à pazada agora nos russos em vez dos vizinhos espanhóis, que já são nossos aliados.
Bombardear embaixadas não se faz, é um crime «bárbaro», muito menos a portuguesa, representante da diplomacia de um povo seráfico e pacífico, amante da paz embora seja aconselhável não pronunciar esta última parte em voz alta porque ofende a opinião única, provoca os vigilantes cavaleiros da verdade terçando mentiras nos omniscientes meios de comunicação social do regime.
Sebastiânica saudade de grandeza
A história, porém, parece não ser tão linear como a pinta a casta governante.
Será que os russos resolveram vingar-se dos ataques com mísseis ATACAM norte-americanos e Storm Shadows britânicos contra alvos em Rostov, território da Federação, punindo apenas um membro da NATO, e logo Portugal?
Parece andar por aqui uma sebastiânica saudade de grandeza e um orgulho patriótico contrastante com o comportamento habitual dos governos, das maiorias parlamentares e do actual chefe de Estado, tão vocacionados para fazer desaparecer Portugal nos meandros conspirativos e não-democráticos, porque não-eleitos, da NATO e da União Europeia.
Por que razão iriam os russos escolher como alvo a punir logo um país que deixou de existir e mal se dá por ele porque o sim automático a todos os comportamentos imperiais, coloniais, expansionistas e provocatórios do «civilizado» Ocidente é sempre dado como adquirido? Além de ser um bom e incomparável aluno, sempre capaz de cumprir até mais do que os carrascos coloniais exigem.
Afinal, observando o cenário mais de perto e baixando o som do alarido parece que a embaixada não foi alvejada. Os mísseis, ou os seus destroços, atingiram «a zona» da embaixada», instalada num prédio onde existem outras representações diplomáticas de gigantes da arena mundial como o Montenegro, a Macedónia do Norte, a Argentina agora nas mãos de Milei, irmão de Cotrim, e, injustiça das injustiças, a Palestina.
Uns vidros partidos pelas explosões, uns sustos, tudo susceptível de caber naquele conceito que os militares norte-americanos em boa hora inventaram quando foram «libertar o Iraque»: o dos inevitáveis danos colaterais.
Tanto mais que na mesma «zona» funcionam o comando operacional da tenebrosa e torcionária polícia política nazi-banderista, responsável confessa pelo recentíssimo assassínio do tenente-general russo Kirilov, e alguns departamentos militares muito «criativos» dentro do aparelho de guerra do regime de Kiev. Esses sim, alvos na mira do ataque de Moscovo.
Tudo leva a crer, portanto, que a alegada punição portuguesa mais não foi do que uma infeliz coincidência de vizinhança, deitando água na fervura, no fervor e até no orgulho com que a clique governante lusa encarou a hipótese de ter sido a escolhida como alvo da fúria vingativa russa entre tantos apoiantes ocidentais do nazi-banderismo ucraniano na guerra com Moscovo.
Por outro lado, parece que na «zona» das redondezas da embaixada não caíram mísseis, a crer na versão oficial ucraniana, mas sim apenas destroços dos mísseis agressores, derrubados pelos «azoves» de serviço, atenuando a extensão dos prejuízos.
Aqui as opiniões dividem-se, é assim a propaganda de guerra. Kiev diz que abateu os seis mísseis hipersónicos lançados por Moscovo, graças à eficácia da sua já praticamente inexistente defesa antiaérea. Moscovo assegura que todos os mísseis atingiram os alvos seleccionados – na lista dos quais, para desespero do destemido cavaleiro andante Rangel, não estava a embaixada portuguesa. Quem fala verdade e quem mente? Venha o diabo e escolha.
Quem vai à guerra…
Suponhamos agora que, por absurdo, a Rússia tinha escolhido enviar um aviso aos dirigentes portugueses pela sua participação directa, através de apoio geopolítico e de ajuda material, em todo o processo golpista e terrorista ocorrido na Ucrânia e que conduziu ao actual estado de guerra. Moscovo tem ou não razão para estar descontente com o comportamento de Lisboa? Tem, sem dúvida.
«A casta usurpadora apátrida de Lisboa decidiu espezinhar a Lei Fundamental portuguesa e entrar numa guerra alheia, transformando Portugal – e, sobretudo, os portugueses – em alvos potenciais da parte escolhida como inimiga.»
E o povo português tem igualmente razões para não estar satisfeito com a política externa militarista e também ilegal da clique governante – porque orientada pela ordem internacional baseada em regras norte-americana e não pelo direito internacional – uma vez que nos envolve em guerras que não nos dizem respeito, violam a Constituição da República e ofendem o espírito do 25 de Abril, que também nasceu da necessidade de um urgente reencontro com a paz.
A casta usurpadora apátrida de Lisboa decidiu espezinhar a Lei Fundamental portuguesa e entrar numa guerra alheia, transformando Portugal – e, sobretudo, os portugueses – em alvos potenciais da parte escolhida como inimiga. Se os novembrista governantes conhecessem o povo e não vivessem cheios de si e encerrados em gabinetes onde existe ligação permanente por Skype aos burocratas não-eleitos e aos autocratas de Bruxelas, talvez já tivessem ouvido o velho aforismo segundo o qual «quem vai à guerra dá e leva». Então, se os russos tivessem atingido deliberadamente a embaixada lusitana em Kiev não estariam a praticar uma acção gratuita. A guerra é a guerra.
A democracia ou o golpismo nazi-banderista?
Defender a democracia é o objectivo do apoio ao regime corrupto de Zelensky até às últimas consequências (incluindo a extinção da vida na Terra, se necessária), explica o «arco da governação» com o desplante próprio de quem pratica a mentira e a manipulação como privilegiadas armas políticas. A democracia do regime nazi-banderista de Kiev? O apoio implícito, quando não explícito, ao genocídio e limpeza étnica praticados pelo regime sionista, a «única democracia do Médio Oriente», a «democracia» do criminoso de guerra Benjamin Netanyahu, valente defensor da «civilização ocidental» na região? A euforia irresponsável pela tomada «democrática» de Damasco pela al-Qaida? O reconhecimento presidencial de um candidato derrotado, mentor e condutor de esquadrões da morte, nas eleições legítimas e transparentes na Venezuela? Até a anulação de eleições livres na confrade Roménia porque foram ganhas por um candidato que não pertence à seita governamental e pró-Bruxelas de Bucareste.
Os portugueses têm razões para sentir vergonha dos seus governantes. Que dizem defender a democracia irmanando-se a regimes e correntes fascistas, envolvendo-se no expansionismo militarista imperial e colonial para que a paz seja finalmente encontrada no fim da guerra, sobretudo se for a paz dos cemitérios.
Os governos portugueses apoiaram deliberadamente o golpe nazi-banderista de 2014 na Praça Maidan, em Kiev, que «restabeleceu a democracia» derrubando um presidente e um sistema de governo resultantes de eleições democráticas, transparentes e que ninguém contestou; não emitiram um pio quando as novas autoridades autocráticas e nacionalistas da Ucrânia – que suprimiram os partidos capazes de fazerem oposição – avançaram para a guerra, a chacina e a limpeza étnica do Donbass, de maioria russa, em nome de uma raça pura, contra os «sub-humanos»; entraram deliberadamente na guerra, ao lado do regime ucraniano de apartheid, quando a Rússia decidiu defender os russos, como se os interesses dos portugueses fossem tidos e achados nesta situação. Como já se viu, a guerra ucraniana nada tem a ver com a democracia, essa história da Carochinha já fez o seu percurso e esfumou-se: agora é apenas uma sentença burocrática, ridícula, pervertida por imbecis desejosos de universalizar a imbecilidade.
Então os governos portugueses enviaram dois ou três tanques coxos, logo transformados em sucata, apenas para mostrarem a valentia bacoca de se dizerem em guerra; mandam fabricar drones para entregar aos nazi-banderistas de Kiev e alimentar uma guerra perdida, assim contribuindo para liquidar inutilmente milhares de vidas humanas por dia. O então primeiro-ministro Costa não se coibiu de atacar o tesouro nacional, e os rendimentos dos contribuintes, apropriando-se indevidamente de 250 milhões de euros para os lançar no poço sem fundo dos proveitos do ditador Zelensky, cujo mandato já caducou há mais de um ano. Costa recebeu como prebenda a presidência do Conselho Europeu e em poucos dias fez-nos ter saudades do retardado Charles Michel. Como Durão Barroso ao actuar como mordomo da cimeira que pôs em marcha a injustificada guerra contra o Iraque, Costa recebe a recompensa pelos bons serviços prestados à causa autocrática europeia e ao terrorismo de Estado norte-americano e – por arrastamento – israelita.
Os russos, naturalmente, teriam as suas razões para advertir as autoridades portuguesas – com o preço mais alto a ser pago pelo povo português – devido ao seu evidente envolvimento ao lado dos nazis de Kiev. Mas não o fizeram. Seria inútil e um desperdício de mísseis.
Vergonha do Martim Moniz
A rábula mediática e politiqueira, embrulhada em ademanes de palavreado diplomático das Necessidades exibidos com uma valentia bacoca e de banda desenhada, chegou mesmo a tempo de desviar o foco político e mediático da vergonha nacional que foi o assalto das «forças da ordem», ditas «de segurança», contra o Martim Moniz e a população dessa zona lisboeta, fazendo lembrar as «operações de limpeza» de outros tempos. Porém, não há memória de o famigerado capitão Maltês, da polícia de choque salazarista-marcelista, ter chegado alguma vez ao ponto de humilhar centenas de pessoas virando-as contra a parede como se já as tivesse definido como criminosas.
Violência, xenofobia, arbitrariedade, desprezo feroz pelos direitos humanos, desumanidade cruel, raiva fascista com tonalidades de vingança no país que é de Novembro, governado por quem faz por desconhecer o que foi Abril. Tudo numa operação à medida dos programas racistas do Chega que o «arco da governação» aconchega no seu regaço como filho pródigo finalmente regressado meio século depois de transviado em 25 de Abril de 1974.
O chefe de Estado, que sabia imediatamente tudo sobre o que (não) se passara em Kiev, desconhecia, porém, a acção terrorista desencadeada nas suas vizinhanças porque «ainda não tinha visto as imagens». Nem parecia interessado em fazê-lo.
Afinal, fazendo uma radiografia da «operação de segurança» conduzida por forças policiais com nova farda mas mentalizadas como as de antigamente, parece que a culpa do estado de desastre económico e social – que não securitário, essa é outra patranha com que tentam envenenar os cidadãos – a que Portugal chegou é toda dos imigrantes e refugiados. Sem eles, viveríamos no país das maravilhas. As diligentes forças de «segurança», ao que consta, detiveram apenas uma das vítimas da rusga fascista, por sinal um branco, bem portuguesinho, indubitavelmente membro da raça pura, do jardim de Borrell, um aríete da «civilização ocidental».
O governo de apátridas ao serviço de interesses estrangeiros, ao contrário dos imigrantes e refugiados, esse tem as mãos limpas nesta hecatombe nacional anunciada, que ainda não passou do adro.
De que se queixa então o «arco da governação»? Dos russos, dos imigrantes, dos refugiados, dos mísseis que caem «na zona» da sua embaixada numa guerra para a qual os portugueses não são tidos e achados, dos anos de atraso com que a al-Qaida tomou Damasco, dos iranianos, dos chineses, dos venezuelanos, dos cubanos, até dos palestinianos por não se renderem como deviam ao sionismo, assumindo os caminhos do exílio e da extinção.
Os governos estão inocentes, «deixem-nos governar,» já dizia o outro; a culpa toda é de factores externos e alheios e, acima de tudo, do povo – que ainda não se dispôs totalmente a ser domesticado. Para isso se montou a operação do Martim Moniz, provavelmente outras e mais graves se seguirão, se não lhes fizermos frente com todas as nossas forças, meios, mobilização e convicções verdadeiramente democráticas. A instauração deliberada do estado policial espreita-nos. É que na sombra, como já se percebeu, lá está outro almirante, o homem providencial que certamente não desdenhará institucionalizar o «safanão dado a tempo», como dizia o beato de Santa Comba, tão bem como organizou o rebanho dos vacinados, provando assim que a domesticação do povo é possível, basta ele encarregar-se disso. Pelos vistos – talvez seja mesmo uma certeza que ele alimenta no seu ego inchado como um sapo – polícias, tropa e NATO não lhe faltarão.
2024/11/26
Estará o Ocidente finalmente pronto para admitir a derrota na Ucrânia?
(Glenn Diesen*, Russia Today RT**, 2024/11/03)
A comunicação social está a mudar a narrativa à medida que a guerra por procuração perde força.
A revista The Economist noticia esta semana que “a Rússia está a destruir as defesas ucranianas” e a Ucrânia está subsequentemente “a lutar para sobreviver”. Em todos os meios de comunicação ocidentais, o público está a ser preparado para derrotas e concessões dolorosas em futuras negociações. Os jornalistas estão a mudar a narrativa, pois a realidade já não pode ser ignorada. O futuro sucesso de Moscovo tem sido óbvio pelo menos desde o Verão de 2023, mas foi ignorado para manter a guerra por procuração.
Estamos a assistir a uma impressionante demonstração de controlo narrativo: durante mais de dois anos, as elites político-mediáticas têm gritado “A Ucrânia está a vencer” e denunciado qualquer dissidência à sua narrativa como “propaganda do Kremlin” que visam reduzir o apoio à guerra. O que ontem era “propaganda russa” é agora subitamente o consenso das elites colectivas. A autorreflexão crítica está tão ausente como estava após a reportagem do Russiagate, depois das eleições de 2016 nos EUA.
Um controlo narrativo semelhante foi demonstrado quando os meios de comunicação social garantiram ao público durante duas décadas que os EUA controlavam o Afeganistão, antes de fugirem apressadamente com imagens dramáticas de pessoas a cair de um avião.
Os jornalistas enganaram o público no passado ao apresentarem as linhas da frente estagnadas como prova de que a Rússia não estava a ganhar vantagem. Contudo, numa guerra de desgaste, a direcção da guerra é medida pelas taxas de desgaste – as perdas de cada lado. O controlo territorial ocorre depois de o adversário estar exausto, uma vez que a expansão territorial é muito dispendiosa numa guerra de alta intensidade com linhas defensivas poderosas. As taxas de desgaste durante a guerra foram extremamente desfavoráveis para a Ucrânia e continuam a agravar-se. O actual colapso das linhas da frente de Kiev era muito previsível, uma vez que a sua mão-de-obra e armamento estavam esgotados.
Por que razão a narrativa anterior expirou? O público pode ser induzido em erro por falsas taxas de desgaste, mas não é possível encobrir as alterações territoriais após o eventual ponto de rutura. Além disso, a guerra por procuração foi benéfica para a NATO quando os russos e os ucranianos se sangravam uns aos outros sem quaisquer alterações territoriais significativas. Agora que os ucranianos estão exaustos e começam a perder território estratégico, já não é do interesse do bloco liderado pelos EUA continuar a guerra.
Controlo narrativo: armando a empatia
Em 2022, as elites políticas e mediáticas utilizaram a empatia como arma para obter o apoio público para a guerra e o desprezo pela diplomacia. O público ocidental foi convencido a apoiar a guerra por procuração contra a Rússia através de mensagens intermináveis sobre o sofrimento dos ucranianos e a injustiça da sua perda de soberania.
Aqueles que discordaram do mantra da NATO de que “as armas são o caminho para a paz” e, em vez disso, sugeriram negociações, foram rapidamente rejeitados como fantoches do Kremlin que não se preocupavam com os ucranianos. O apoio à continuação dos combates numa guerra que não pode ser ganha tem sido a única expressão aceitável de empatia.
Para os pós-modernistas que procuram construir socialmente a sua própria realidade, a rivalidade entre grandes potências é, em grande parte, uma batalha de narrativas. A transformação da empatia numa arma permitiu que a narrativa militar se tornasse imune às críticas. A guerra era virtuosa e a diplomacia traiçoeira, uma vez que a Ucrânia, alegadamente, travava a guerra “não provocada” da Rússia com o objectivo de subjugar todo o país. Um forte enquadramento moral convenceu as pessoas a enganarem-se e a autocensurarem-se em apoio desta nobre causa.
Até as críticas sobre a forma como os civis ucranianos foram arrastados para os carros pelo seu governo e enviados para a morte nas linhas da frente foram retratadas como apoio aos “pontos de discussão do Kremlin”, uma vez que minaram a narrativa de guerra da NATO.
Os relatórios sobre as elevadas taxas de baixas ucranianas ameaçaram minar o apoio aos combates. Reportar sobre o fracasso das sanções ameaçou reduzir o apoio público às sanções. Reportar sobre a provável destruição do Nord Stream pelos EUA ameaçou criar divisões dentro da NATO. As reportagens sobre a sabotagem dos EUA e do Reino Unido aos acordos de Minsk e às negociações de Istambul ameaçaram a narrativa de que o Ocidente se limita a tentar “ajudar” a Ucrânia. Foi oferecida ao público a opção binária de aderir à narrativa pró-Ucrânia/NATO ou à narrativa pró-Rússia. Qualquer pessoa que a conteste com factos inconvenientes poderá assim ser acusada de apoiar os objectivos de Moscovo. Salientar que a Rússia estava a ganhar foi interpretado acriticamente como estar do seu lado.
Existem amplos factos e declarações que demonstram que a NATO tem lutado até ao último ucraniano para enfraquecer um rival estratégico. No entanto, o controlo narrativo estrito implica que tais provas não tenham sido autorizadas a ser discutidas.
Os objetivos de uma guerra por procuração: Sangrar o adversário
A estrita exigência de lealdade à narrativa esconde o facto de que a política externa dos EUA visa restaurar a primazia global e não um compromisso altruísta com os valores democráticos liberais. Os EUA consideram a Ucrânia um instrumento importante para enfraquecer a Rússia como rival estratégico.
A RAND Corporation, um think tank financiado pelo governo dos EUA e conhecido pelos seus estreitos laços com a comunidade de inteligência, publicou um relatório em 2019 sobre como os EUA poderiam sangrar a Rússia, puxando-a ainda mais para a Ucrânia. A RAND propôs que os EUA poderiam enviar mais equipamento militar para Kiev e ameaçar a expansão da NATO para provocar Moscovo a aumentar o seu envolvimento na Ucrânia:
“Fornecer mais equipamento militar e aconselhamento dos EUA poderá levar a Rússia a aumentar o seu envolvimento directo no conflito e a pagar o preço por isso… Embora o requisito de unanimidade da NATO torne improvável que a Ucrânia consiga tornar-se membro num futuro próximo, a insistência de Washington nesta possibilidade poderá impulsionar a determinação ucraniana, ao mesmo tempo que levará a Rússia a redobrar os seus esforços para impedir tal desenvolvimento.”
No entanto, o mesmo relatório da RAND reconheceu que a estratégia de sangrar a Rússia tinha de ser cuidadosamente “calibrada”, uma vez que uma guerra em grande escala poderia resultar na aquisição de territórios estratégicos pela Rússia, o que não é do interesse dos EUA . Depois de a Rússia ter lançado a sua operação militar em Fevereiro de 2022, a estratégia foi igualmente manter a guerra enquanto não houvesse mudanças territoriais significativas.
Em março de 2022, Leon Panetta (ex-chefe de gabinete da Casa Branca, secretário da defesa e diretor da CIA) reconheceu: “Estamos envolvidos num conflito aqui, é uma guerra por procuração com a Rússia, quer o digamos quer não… A forma de obter vantagem é, francamente, entrar e matar russos.” Até Zelensky reconheceu, em Março de 2022, que alguns estados ocidentais queriam usar a Ucrânia como representante: “Há aqueles no Ocidente que não se importam com uma guerra longa porque significaria exaurir a Rússia, mesmo que isso signifique o fim da Ucrânia e seja à custa de vidas ucranianas.”
O Secretário da Defesa dos EUA, Lloyd Austin, descreveu os objectivos da guerra por procuração na Ucrânia para enfraquecer o seu adversário estratégico:
“Queremos ver a Rússia enfraquecida ao ponto de não poder fazer o tipo de coisas que fez ao invadir a Ucrânia… Portanto, [a Rússia] já perdeu muita capacidade militar. E muitas das suas tropas, afirme-mo-lo francamente. E queremos que não tenham a capacidade de reproduzir essa capacidade muito rapidamente.”
Houve também indícios de mudança de regime como objectivo mais vasto da guerra. Fontes dos governos dos EUA e do Reino Unido confirmaram em Março de 2022 que o objectivo era que “o conflito se prolongasse e, assim, sangrasse Putin”, uma vez que “o único fim do jogo agora é o fim do regime de Putin”. O presidente norte-americano, Joe Biden, sugeriu que a mudança de regime era necessária na Rússia: “Por amor de Deus, este homem não pode permanecer no poder”. No entanto, a Casa Branca recuou posteriormente nestas observações perigosas.
Um porta-voz do então primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, fez também uma referência explícita à mudança de regime, defendendo que “as medidas que estamos a introduzir, que grandes partes do mundo estão a introduzir, destinam-se a derrubar o regime de Putin”. James Heappey, o ministro das Forças Armadas do Reino Unido, escreveu de forma semelhante no Daily Telegraph:
“O seu fracasso deve ser completo; A soberania ucraniana deve ser restaurada e o povo russo deve ser capacitado para ver quão pouco se preocupa com ele. Ao mostrar-lhes isto, os dias de Putin como Presidente estarão certamente contados, tal como os da elite cleptocrática que o rodeia. Perderá o poder e não poderá escolher o seu sucessor.”
Lutando até ao último ucraniano
Chas Freeman, antigo secretário adjunto da Defesa dos EUA para assuntos de segurança internacional e diretor para assuntos chineses no Departamento de Estado, criticou a decisão de Washington de “lutar até ao último ucraniano”.
Entretanto, o senador republicano Lindsey Graham descreveu os acordos favoráveis que os EUA estabeleceram com a Ucrânia: “Gosto do caminho estrutural em que estamos aqui. Enquanto ajudarmos a Ucrânia com as armas de que necessita e com o apoio económico, eles lutarão até à última pessoa.” O líder republicano do Senado, Mitch McConnell, advertiu contra a confusão do idealismo com a dura realidade dos objectivos dos EUA na guerra por procuração:
“O Presidente Zelensky é um líder inspirador. Mas as razões mais básicas para continuar a ajudar a Ucrânia a degradar e derrotar os invasores russos são os interesses americanos frios, duros e práticos. Ajudar a equipar os nossos amigos na Europa de Leste para vencerem esta guerra é também um investimento directo na redução das capacidades futuras de Vladimir Putin para ameaçar a América, ameaçar os nossos aliados e contestar os nossos interesses fundamentais... Finalmente, todos sabemos que a luta da Ucrânia para retomar o seu território não é nem o início nem o fim da competição estratégica mais ampla do Ocidente com a Rússia de Putin.”
O senador Mitt Romney argumentou que armar a Ucrânia estava “a diminuir e a devastar as forças armadas russas por uma quantia muito pequena de dinheiro… uma Rússia enfraquecida é uma coisa boa”, e tem um custo relativamente baixo, pois “não estamos a perder vidas na Ucrânia ”. .” O Senador Richard Blumenthal afirmou de forma semelhante: “estamos a obter o valor do nosso dinheiro no nosso investimento na Ucrânia” porque “por menos de 3 por cento do orçamento militar da nossa nação, permitimos que a Ucrânia degradasse a força militar da Rússia para metade… Tudo sem [a morte de] um único americano”. O congressista Dan Crenshaw concorda que “investir na destruição das forças armadas do nosso adversário, sem perder um único militar americano, parece-me uma boa ideia”.
O general norte-americano reformado Keith Kellogg argumentou de forma semelhante em Março de 2023 que “se conseguir derrotar um adversário estratégico sem utilizar quaisquer tropas dos EUA, estará no auge do profissionalismo”. Kellogg explicou ainda que utilizar ucranianos para combater a Rússia “tira um adversário estratégico da mesa” e permite assim que os EUA se concentrem no seu “principal adversário que é a China”. O antigo secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, defendeu ainda que derrotar a Rússia e usar a Ucrânia como baluarte contra a Rússia “tornará mais fácil” para os EUA “concentrarem-se também na China… se a Ucrânia ganhar, então terá o segundo maior exército da Europa”, o exército ucraniano, endurecido pela batalha, do nosso lado, e teremos um exército russo enfraquecido, e agora temos também a Europa a intensificar realmente os gastos com defesa.”
É necessária uma nova narrativa de vitória, uma vez que uma Ucrânia apoiada pela NATO não pode, de forma realista, derrotar a Rússia no campo de batalha. A mais óbvia é afirmar que a Rússia falhou no seu objectivo de anexar toda a Ucrânia para ajudar a recriar a União Soviética e, posteriormente, conquistar a Europa. Esta falsificação permitiria à NATO reclamar a vitória. Após a desastrosa contra-ofensiva da Ucrânia no Verão de 2023, esta foi assinalada por David Ignatius no Washington Post, onde defendeu que a medida do sucesso é o enfraquecimento da Rússia:
“Entretanto, para os Estados Unidos e os seus aliados da NATO, estes 18 meses de guerra foram uma sorte inesperada estratégica, a um custo relativamente baixo (excepto para os ucranianos). O antagonista mais imprudente do Ocidente foi abalado. A NATO tornou-se muito mais forte com a adição da Suécia e da Finlândia. A Alemanha abandonou a dependência da energia russa e, em muitos aspetos, redescobriu o seu sentido de valores. As disputas da NATO fazem manchetes, mas, no geral, este foi um verão triunfal para a aliança.”
Sean Bell, antigo vice-marechal da Royal Air Force e funcionário do Ministério da Defesa, defendeu em Setembro de 2023 que a guerra degradou significativamente os militares russos a tal ponto que “já não representa uma ameaça credível para a Europa”. Bell concluiu, por isso, que “o objectivo ocidental deste conflito foi alcançado” e “A dura realidade é que os objectivos da Ucrânia já não estão alinhados com os seus apoiantes”.
A procuração ucraniana esgotou-se, o que põe fim à guerra por procuração, a menos que a NATO esteja preparada para entrar em guerra contra a Rússia. À medida que a NATO se prepara para reduzir as suas perdas, é necessária uma nova narrativa. Em breve será permitido apelar à realização de negociações como demonstração de empatia pelos ucranianos.
*Glenn Diesen é professor da Universidade do Sudeste da Noruega e editor da revista Russia in Global Affairs. Siga-o no Substack. Este artigo foi publicado originalmente na Substack de Glenn Diesen e editado pela equipa da RT.
2024/09/22
Sobre censuras, liberdades de informação e duplos critérios
Todos nós, marxistas, sabemos que a Rússia é, desde a queda da URSS, uma potência imperialista. Não se trata aqui, por isso, de defender ou tomar partido pelo mal menor, pela potência imperialista em ascensão, pela Rússia, no confronto global entre o Sul Emergente e o Ocidente Decadente. Todos nos lembramos, ainda, como a Rússia de finais da década de 90 do século passado "tentou" entrar para a União Europeia e para a NATO, na vã esperança de que os EUA, os EUA, sempre os EUA, a deixassem jogar na liga dos ricos. É por isso demasiado óbvio que não se pode ver aqui, com a série de artigos da Russia Today (RT), que vamos começar a publicar, uma tentativa de justificação de acções ou posições de um imperialismo emergente.
Mas então porquê e para quê todo este trabalho de tradução, edição, publicação e distribuição de artigos que estão livremente acessíveis na nuvem?