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2018/08/30

Os Mortos nas Guerras do Botismo

50 anos depois do início das guerras coloniais, alguns dados para avivar a memória
(Irene Pimentel, in Jugular 2016/03/11)

Entre 1961 e 1974, Portugal, onde vigorava um regime ditatorial, levou a cabo guerras coloniais em três frentes de combate. Segundo números oficiais, ao chegar-se a 1974 - ano em que foram mobilizados 150 mil efectivos militares para o esforço de guerra em África -, já havia treze anos que a guerra durava em Angola, onze anos na Guiné e dez em Moçambique. Vejam-se alguns dados para memória presente e futura:

- A guerra sorveu entre 7 a 10% da população portuguesa e mais de 90% da juventude masculina. Ainda em termos de gastos humanos, durante os treze anos de guerra, morreriam mais de 8 mil homens e ficariam feridos ou incapacitados cerca de 100 mil portugueses.

2018/07/28

Que a Terra lhe Pese os Mortos das Guerras

Fez ontem anos que o Esteves bateu as botas. Prendeu uns, maltratou outros, torturou e assassinou os mais recalcitrantes.

Manteve um país rural e ignorante, de luto, durante mais de 40 anos e enviou para as guerras de áfrica duas gerações de jovens.

Em jeito de festiva comemoração por ter batido as botas já depois de cair da cadeira, fica aqui um link para um texto da Diana Andringa publicado Entre As Brumas da Memória, e um poema de Jaime Cortesão ilustrativo do sentimento que nutro pelo bexigoso:

Maldição
(Poema a Salazar)

(Jaime Cortesão, publicado no jornal clandestino "A Verdade", 1934)

Por ti, pelo teu ódio à Liberdade
à Razão e à Verdade,
a tudo o que é viril, Humano e moço,
a fome e o luto apagaram os lares
e os homens agonizam aos milhares
no exílio, no hospital, no calabouço.

Por ti raivoso abutre
cujo apetite sôfrego se nutre
de lágrimas, de gritos, de aflições
gemem nas aspas da tortura
ou baixam em segredo à sepultura
os mártires que atiras às prisões.

A este claro Povo, herói dos povos,
que deu ao Mundo mundos novos,
mais estrelas ao Céu, mais luz ao dia;
a este livre e luminoso Apolo
atas as mãos, os pés e o colo,
e encerras numa lôbrega enxovia.

Falas do céu, como um doutor no templo
mas tu encarnação e vivo exemplo
da hipocrisia vil dos fariseus,
pelos sagrados laços que desunes,
pelos teus crimes, até hoje impunes
roubas ao mesmo crente a fé em Deus.

Passas... e mirra a erva nos caminhos,
as aves, com terror, fogem aos ninhos,
e ao ver-te o vulto gélido e felino,
mulheres e mães, lembrando os lastimosos
casos de irmãos, de filhos ou de esposos,
bradam crispadas as mãos: Assassino! Assassino!

Passas... e até os velhos, cujos anos
têm costumado a monstros e tiranos
dizem, com a boca cheia de ira e asco:
- Sobre esta Pátria mísera que oprimes,
jamais alguém foi réu de tantos crimes.
Vai-te! Basta de vítimas! Carrasco!

Passas... e ergue-se, vai de vale a cerro
dos hospitais, do fundo das masmorras
às inospitas plagas do desterro,
um coro de ais, de imprecações, de morras.

São multidões que rugem num só brado:
- Maldita a hora em que tu foste nado!
- Que se malogre tudo quanto almejas;
- Conturbem-se os teus dias de aflição;
- Neguem-te as fontes água, a terra pão
e as estrelas a luz - Maldito sejas!

2018/06/27

Não, não era bom!

Antigamente é que era bom?
(Arlindo Costa in Odivelas Noticias, 2018/06/21)

Sou um jovem da geração dos anos quarenta do século passado e por isso, uma das coisas que me incomodam é ouvir certa gente dizer que neste país " Antigamente é que era bom !" Daí, eu resolver escrever neste espaço e em especial para os mais novos, sobre antigamente.

Antigamente é que era bom! Tínhamos um guia, o ditador Salazar.

Antigamente é que era bom! Não tínhamos liberdade, tinhamos a censura, a policia politica (PIDE) e prisões políticas.

Antigamente é que era bom! Não havia o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e em cada mil nascimentos de crianças,cinquenta e sete morriam nos primeiros dois anos de vida.

Antigamente é que era bom! Muitos portugueses morriam por falta de condições higiénicas nas suas habitações, pois a maioria do nosso povo não tinha água canalizada, não tinha electricidade, nem rede de esgotos.

Antigamente é que era bom! Em 1974 cerca de três milhões de portugueses viviam em bairros de lata, sem água, sem electricidade e com esgotos a céu aberto (uma fonte de doenças).

Antigamente é que era bom! Os que tinham a sorte de ir à escola e fazer a 4ª classe, começavam logo a trabalhar aos 12, 13 (foi o meu caso) e ou aos 14 anos de idade.

Antigamente é que era bom! Tínhamos a guerra colonial à nossa espera onde muitos jovens perderam a vida e outros vieram de lá com mazelas para o resto das suas vidas.

Antigamente é que era bom! As mulheres portuguesas não podiam sair do país sem autorização dos seus maridos.

Enfim, antigamente é que era bom ! Tínhamos de comer e calar, caso contrário a PIDE tratava-nos da saúde.

E eu pergunto: Quem é que pode ter saudades disto ?

2018/04/30

História - Passado com Vista para o Futuro

O dia em que o povo tomou o poder: 70 anos do 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande
(Gustavo Carneiro in Avante!, 2004/01/18)

Estava-se no início de 1934. Com o mudar do ano, entra em vigor o Estatuto Nacional do Trabalho, fascista, e os sindicatos livres eram oficialmente proibidos, dando origem a outros, subjugados ao poder corporativo. Por todo o País, os trabalhadores combatem a fascização dos sindicatos e convocam para 18 de Janeiro uma greve geral revolucionária, com o objectivo de derrubar o governo de Salazar. A insurreição falha, mas na Marinha Grande os operários vidreiros tomam o poder. Apenas por algumas horas, é certo, pois a repressão esmagaria a revolta. No resto do País, esperavam-se acções iguais, mas em nenhum outro lado se repetiu o gesto dos operários marinhenses. Apesar de fracassada, a revolta dos trabalhadores vidreiros fica na história como um momento alto da resistência ao fascismo. E deixou sementes, que germinaram numa manhã de Abril, precisamente quatro décadas depois.

2018/04/29

Os Assassinados Pelo Botas Salazarento

1931
- O estudante Branco é morto pela PSP, durante uma manifestação no Porto;

1932
- Armando Ramos, jovem, é morto em consequência de espancamentos;
- Aurélio Dias, fragateiro, é morto após 30 dias de tortura;
- Alfredo Ruas, é assassinado a tiro durante uma manifestação em Lisboa;

1934
- Américo Gomes, operário e militante comunista, morre em Peniche com 22 anos após dois meses de tortura;
- Manuel Vieira Tomé, sindicalista ferroviário morre durante a tortura em consequência da repressão da greve de 18 de Janeiro;
- Júlio Pinto, operário vidreiro, morto à pancada na sequência do 18 de Janeiro;

- Anónimo, operário conserveiro. Assassinado pela PSP durante a repressão de uma greve em Setúbal.

1935
- Ferreira de Abreu, dirigente da organização juvenil do PCP, morre no hospital após ter sido espancado na sede da PIDE (então PVDE);

1936
- António Bandeira Cabrita, Antifascista de extraordinária coragem e humanismo, perseguido e preso pela polícia política, membro do PCP deportado aos 21 anos para Timor, foi dos primeiros portugueses a alistar-se nas milícias populares, para lutar pela Liberdade ao lado do povo espanhol. Destacando-se pela sua bravura, morreu aos 26 anos na frente de Talavera, morto pelas balas dos franquistas - Francisco Cruz, operário da Marinha Grande, morre na Fortaleza de Angra do Heroísmo, vítima de maus tratos, é deportado do 18 de Janeiro de 1934;
- Manuel Pestana Garcez, trabalhador, é morto durante a tortura;

2018/04/13

Fascismo Salazarento: um Ror de Misérias

O retrato é simultaneamente objectivo e ilustrativo da visão de uma pequena burguesia ainda em urbanização acelerada, mas importa também notar como a bilderberga consegue falar na oposição ao salazarento sem usar a palavra comunista, é dificil eu sei, mas a bilderberguista conseguiu.

"Tão felizes que nós éramos"
(Clara Loira de Bilderberg em Castelo algures no Espesso)

Anda por aí gente com saudades da velha portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.

Eu não ponho flores neste cemitério.

2018/03/08

Fascismo ou Ditadura Constitucionalizada?

Marcelo não conheceu o fascismo?
(Pedro Tadeu in dn, 2018/03/08)

Marcelo Rebelo de Sousa teve a sensatez e a sensibilidade de emitir uma nota “a lamentar” (lê-se no título) a morte do coronel João Varela Gomes: “O Presidente da República apresenta à Família do Senhor Coronel João Varela Gomes condolências invocando a sua militância cívica, em particular, a sua consistente luta contra a ditadura constitucionalizada antes do 25 de Abril de 1974″, diz o texto enviado às redacções no passado dia 28 de Fevereiro.

Informo o leitor ou a leitora, caso não saiba, que Varela Gomes passou pelas prisões da PIDE (a polícia política de Salazar), participou na campanha eleitoral do general Humberto Delgado (que desafiou o regime), esteve na conspiração da Sé em 1959 e no assalto ao quartel de Beja em 1962 (que o qualificaram como um dos heróis da resistência).

Depois do 25 de Abril, Varela Gomes liderou a 5.ª Divisão do Estado-Maior das Forças Armadas, que percorreu o país a promover sessões de esclarecimento e de propaganda sobre a Revolução dos Cravos e o Movimento das Forças Armadas. No 25 de Novembro de 1975 ficou do lado dos derrotados e teve de fugir do país. Voltou em 1979.