2021/01/19

A Referência Também Apoia A candidatura de João Ferreira

 O João Ferreira clarifica – Manifesto74 
(Bruno Carvalho - Manifesto74 - 2021/01/17)

Foi há poucos dias. Depois de escrever uma reportagem sobre o frio que os portugueses passam em casa, um dos entrevistados contou-me que uma mulher havia deixado de dar sinais de vida há poucos dias na aldeia dos seus pais, na Guarda. Cá fora, a vida decorria normalmente, como se nada fosse, mas atrás da porta, o corpo desta mulher estava em hipotermia e só foi descoberto depois de arrombarem a porta.

É assim o debate político. A narrativa mediática é que determina a campanha. Com sondagens para os gostos de alguns, debates que mais pareceram entrevistas e entrevistas que mais pareceram debates, assim como programas com comentadores ligados ao arco do poder, as eleições são um jogo viciado em que não há pé de igualdade entre candidatos. Cá fora, a vida decorre normalmente. Mas atrás dos cortinados, nos bastidores, há um país ligado às máquinas.

Ana Gomes diz ser candidata independente e imediatamente há quem morda o isco sem se questionar por que é que fez parte dos organismos de direcção do PS e por que é figura habitual nas listas eleitorais do mesmo partido para o parlamento europeu. Num contexto em que parte do discurso populista tenta precisamente desvalorizar o papel das organizações partidárias fulanizando a política, Ana Gomes insiste no falso carrossel da independência.

Como candidata do sistema, não se espera mais do que a defesa do regime democrático sem que de resto se resolva aquilo que realmente importa para travar o fascismo: os graves problemas estruturais de que padecemos e que são oxigénio para o oportunismo da extrema-direita. A falsa disputa pelo segundo lugar inventada por André Ventura foi imediatamente elevada a tema central da campanha. Sem que se questione a razão pela qual se deixa que seja um fascista a determinar o compasso mediático e, consequentemente as nossas orientações, continuamos afastados daquilo que se passa atrás de portas, nos bastidores.

Vejamos, ao contrário do Brasil, onde o candidato da extrema-direita encabeçava as sondagens, André Ventura e o seu partido, para todos os efeitos, continua a ter apenas um deputado na Assembleia da República, e não morde sequer os calcanhares a Marcelo Rebelo de Sousa. Pôr André Ventura no centro da estratégia política não só legitima a indubitável vontade da máquina mediática em levar o candidato da extrema-direita em ombros como reforça aos olhos de muitos eleitores a falsa ideia de que ele é de facto o candidato que incomoda.

Não quer isto dizer que a melhor estratégia contra o fascismo seja enterrar a cabeça na areia mas importa compreender que a extrema-direita também tem a sua estratégia e ela comporta precisamente recorrer a todos os mecanismos para permanecer na crista da onda. Se a comunicação social não tem qualquer pudor em dar oxigénio a André Ventura, tampouco se dá ao trabalho de fingir que não tenta apagar o candidato que realmente incomoda.

Hoje, a Constituição da República Portuguesa é, muitas vezes, não mais do que um pedaço de papel. Em Belém ou em São Bento, os palácios mudam de nome mas não as opções políticas. Fossem do partido de Marcelo Rebelo de Sousa ou do partido de Ana Gomes, a sucessão de presidentes nunca se dignou a cumprir aquilo para que foram eleitos: cumprir e fazer cumprir direitos consagrados pela luta de gerações de mulheres e homens que viveram e vivem do seu trabalho.

Escreveu Bertolt Brecht que “há muitas maneiras de matar”. Podem enfiar-te uma faca na barriga, tirar-te comida, não teres quem te cure uma doença, deixarem-te numa casa sem condições, torturarem-te até à morte através do trabalho ou mobilizarem-te para uma guerra. Como concluiu o poeta e dramaturgo alemão, muito poucas destas coisas estão proibidas na nossa sociedade.

Quando João Ferreira é apelidado de candidato da Constituição, há um certo paternalismo e condescendência com o mais jovem da corrida eleitoral. Como se a Constituição fosse não mais do um pedaço de papel impossível de aplicar na prática. Se é mais difícil um rico entrar no reino dos céus do que um camelo por uma agulha, como diz a biblia, por estes dias parece bem complicado os pobres entrarem em hospitais sobrelotados. Corredores à pinha e pacientes que morrem antes sequer de entrarem nas urgências mostram como Brecht tinha razão. Há crimes que não estão proibidos. Sem usar o estado de emergência para recorrer à requisição civil dos hospitais privados, o atual Governo e o Presidente permitem que a Constituição continue a ser apenas um pedaço de papel.

São inúmeros os crimes que se desenrolam para lá da ribalta e para os quais nunca há espaço senão nos bastidores. Não sabemos mais contornos sobre a mulher de Almeida mas sabemos que milhares de portugueses sofrem de pobreza energética em casas sem condições. Mas também depende daquilo a que se entende por quatro paredes quando entre quatro paredes de tela dormem centenas de sem-abrigo. Jovens que abdicam de estudar porque têm de trabalhar para sobreviver numa realidade laboral cada vez mais precária e sem conseguirem acesso à habitação. Mulheres assediadas pelos patrões. Trabalhadores da cultura que são sucessivamente aquele dossier guardado numa gaveta poeirenta de um ministro. Idosos que suaram por este país e que contam os trocos para comprar medicamentos. Imigrantes que construíram auto-estradas, universidades e hospitais privados onde não podem entrar. O país que a constituição consagra não existe e há quem o queira construir.

Do outro lado, há cada vez mais empresários e accionistas de grandes grupos económicos e financeiros a deixar de apostar apenas nos habituais cavalos de corrida para investirem também no Chega. Pouco lhes importa o perigo de abrir as portas à extrema-direita porque sabem que em qualquer uma das situações têm os seus interesses salvaguardados e isso é o que realmente importa. Marcelo Rebelo de Sousa, Ana Gomes ou André Ventura é-lhes indiferente. Desde que seja o nosso suor a pagar-lhes iates.

O fascismo nunca pôs em perigo as grandes empresas e entidades financeiras. Pôs em perigo direitos laborais, sociais, políticos e culturais para a classe trabalhadora. Em última instância, já é bom para os que dominam o sistema em que vivemos, e que André Ventura finge combater, que o Chega ponha na agenda mediática e política temas que agora se normalizam.

Marcelo Rebelo de Sousa não é avesso à redução de impostos para os mais ricos, nem ao reforço do poder dos privados na saúde, nem às restrições à interrupção voluntária da gravidez, nem à mercantilização da cultura, nem à liberalização dos despedimentos. Pode é ter vergonha de o assumir às claras. E é este o perigo. Não é só grave a mera possibilidade de que a extrema-direita chegue ao poder. É grave que o seu discurso contamine o ambiente político e mediático permitindo aos grandes grupos económicos e financeiros tirar ainda mais dos nossos bolsos para os deles enquanto nos distraem com o género da nossa colega de trabalho ou com a cor da pele do nosso vizinho.

Não pode haver dúvidas, João Ferreira é o melhor candidato para cumprir e fazer cumprir uma constituição que é um marco de liberdades e direitos. Que do ponto de vista institucional é a melhor arma contra o sistema em que vivemos. Um paradoxo que mostra que os que mais falam de ordem são os que menos respeitam o quadro constitucional vigente. Por isso é que o João é o candidato que incomoda e é o candidato de quem verdadeiramente quer incomodar o poder.

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