2018/05/31

Epá! Este Gajo Não É Comunista, Pois Não?

A Europa e o abismo
(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 30/05/2018)

Itália é apenas o último episódio na degradação contínua de um aspeto central da construção Europeia e da moeda única: a sua compatibilidade com o funcionamento das Democracias.

Diz muito do monumental falhanço que é a arquitetura do Euro que, por estes dias, entre a proteção da ortodoxia financeira inerente às regras e a garantia do direito dos povos a decidirem o seu futuro, faz com que prevaleça em muitas cabeças a segunda.

Como se já não bastasse que, pela segunda vez desde 2011, em Itália se vá nomear um Governo “tecnocrático”, que é uma palavra simpática para dizer que se vai nomear alguém sem legitimidade democrática, Bruxelas decidiu piorar as coisas com o habitual tom paternalista e ameaçador e as subsequentes retratações mais ou menos tíbias.

2018/05/30

No Reino das Misérias

A recuperação do Imperio e a desaparição dos trabalhadores
(James Petras in ODiário.info, 2018/05/30)

Introdução

Os impérios entram em decadência ou expandem-se em função, basicamente, das relações entre governantes e governados. Há vários factores determinantes, entre os quais se incluem: 1) o rendimento, a terra e a habitação; 2) a evolução do nível de vida; 3) o aumento ou descida da taxa de mortalidade; e 4) a diminuição ou o aumento das famílias.

Ao longo da história, os impérios em expansão incorporaram a população no império, distribuindo às massas uma parte dos recursos espoliados, proporcionando-lhes terras, arrendamentos reduzidos e habitações. Os grandes latifundiários que tinham que fazer frente aos jovens veteranos regressados das guerras evitavam uma excessiva concentração da terra para evitar distúrbios nos seus feudos. Os impérios em expansão melhoravam as condições de vida, pois empregados assalariados, artesãos, mercadores e escriturários encontravam emprego quando a oligarquia dava rédea solta ao seu consumo de ostentação e crescia a burocracia que administrava o império.

Abriu-se a porta

Os quatro projetos postos à votação foram derrotados. É um facto. Um deles tangencialmente, é outro facto. Creio ser a primeira vez que uma matéria com o impacto da morte medicamente assistida foi posta à discussão, encontrou eco no parlamento para ser debatida e foi a votos, num espaço de tempo tão curto.

Todos sabemos que nada acabou ontem, muito pelo contrário. Ontem abriu-se a porta para um elefante que já tinha entrado na loja de cristais mas que alguns teimaram não ver. Estou certo que a matéria será a partir de ontem objeto de uma discussão alargada e crescentemente informada. Vamos fazer parte dela? Ou vamos sofrer os efeitos de um debate que, independentemente da relevância que lhe reconheçamos, vai fazer o seu caminho nos próximos anos?

Não tenciono, de todo, entrar no caminho da confrontação com os meus amigos e camaradas de sempre, com quem ainda tenho todo um caminho para fazer. Mas fica-me uma preocupação grande ao constatar a ligeireza com que, aos meus olhos, foi definida uma posição sobre uma questão que, todos nós podiamos antever, iria abrir um debate apaixonado entre as muitas e diversificadas esquerdas, com especial intensidade em redor de quem nos habituou a posições fundamentadas e bem ponderadas.

Recordo exemplos de debates sobre questões desta natureza organizados em redor de "grandes" conferências nacionais, conferências que acabavam por extravasar o debate e oferecer terreno bem mais sólido para tomar posições mais informadas e menos apaixonadas..

Espero desesperadamente não ver cair tal tradição.

O tema veio para ficar, a rapidez das transformações demográficas e da ofensiva da classe dominante já não nos dá os anos que precisariamos para debater e consolidar ideias. Tudo hoje é muito mais rápido. Ainda vamos a tempo de quebrar tabus e debater a sério uma questão que vai estar em cima da mesa até se encontrar uma solução consensual. Ou aceitamos o desafio, já que não soubemos liderá-lo, ou deixaremos que tudo se resolva sem o nosso contributo. Como é que vai ser?

Podem Não Ver, Mas Lá Por Baixo Já Está Tudo a Arder!

Operações «Robin dos Bosques» e tartarugas militantes
(Rémy Herrera in ODiário.info, 2018/05/18)

Neste fim de Maio a movimentação social continua em numerosas localidades de França. A sua própria prolongada duração aproxima-se de um endurecimento dos conflitos. A contestação de fundo, dirigida contra as políticas neoliberais aplicadas desde há um ano pelo governo do Presidente Emmanuel Macron, não perde força. Mesmo que não seja nada fácil para muitas das famílias de trabalhadores mobilizados nas greves ver as suas folhas de pagamento amputadas no fim do mês, ou dispor sempre da energia para participar no enorme número de manifestações que são planeadas pelas assembleias gerais e pelas organizações sindicais.

As Democráticas Eleições no México

Mais de cem políticos assassinados no México no período eleitoral
(Abril Abril, 2018/05/28)

A consultora de riscos Etellekt dá conta de 313 agressões contra políticos entre 8 de Setembro de 2017 e 26 de Maio de 2018. Mais de uma centena encontram-se sob ameaça e 102 foram assassinados.

A campanha para as eleições que terão lugar a 1 de Julho no México começou a 30 de Março, mas o período eleitoral já se prolonga há oito meses. No mais recente relatório sobre «violência política», apresentado esta segunda-feira, a consultora de análise de riscos Etellekt revela que, entre 8 de Setembro do ano passado e 26 de Maio último, se registaram 357 agressões contra políticos e candidatos às eleições (incluindo neste registo atentados contra familiares).

2018/05/29

Ler Bons Argumentos

Uma vida digna, já agora
(Nuno Ramos de Almeida in Jornal i, 2018/05/28)

É preciso discutir o direito a um fim em condições, que tenha em conta a qualidade de vida, sem cair em simplismos e campanhas imbecis, e não esquecendo que as condições sociais em que se aprovarão um dia estas medidas ditarão se esta decisão será livre

Provavelmente, matar-me-ei. Ou, pelo menos, não descarto a possibilidade de decidir fazê-lo. Esta é uma decisão individual que não depende da crença dos outros. Ela é formada pela vida de cada um. Nunca tinha pensado muito nisso, até porque a morte era uma noite longínqua, até ter tropeçado em linhas, palavras, dias e sentimentos que me acordaram.

2018/05/27

A Guerra dos EUA Contra a Venezuela

«Golpe de Mestre»: o roteiro oficial da guerra contra a Venezuela
(José Goulão in AbrilAbril 2018/05/24)

Os EUA estão a atacar a Venezuela cumprindo um plano «top secret» elaborado pelo SouthCom do Pentágono, que só será dado como concluído «quando a ditadura corrupta de Nicolás Maduro tiver sido derrotada».

Elaborado para ser aplicado em várias fases, o «Plano para Derrubar a Ditadura Venezuelana – Golpe de Mestre», assim foi baptizado o documento assinado pelo almirante Kurt Walter Tidd, comandante do SouthCom (Comando Sul), prevê uma agressão militar multinacional integrando tropas de combate norte-americanas e de países da região, incluindo o Brasil, sob comando directo do Pentágono. Como se percebe pela leitura integral do texto, esta guerra será um primeiro passo para o «renascimento da democracia» à «escala continental».

2018/05/26

Para uma Discussão da Legislação Sobre a Eutanásia

Enquanto antigo e empenhado partidário de uma liberdade plena, individual e socialmente inserida no primado coletivo, a que todos estamos eticamente obrigados, de fazer o melhor possível pelos restantes membros da sociedade ou, pelo menos, a abster-nos de lhes fazer mal, sou também, naturalmente favorável à prática da morte medicamente assistida, de quem, enquanto cidadão lúcido e adulto, manifeste expressamente a sua vontade para tal. Penso desta forma por entender que, ao recusar ajuda ao meu próximo na execução da sua vontade, que só nele tem impacto, estaria obviamente a cercear-lhe a liberdade e portanto a infligir-lhe um sofrimento por ele indesejado.

Neste quadro, parece-me especialmente interessante discutir a argumentação que o psiquiatra José Manuel Jara, enquanto franco opositor da eutanásia, publicou no AbrilAbril. E porque foi uma das poucas argumentações algo fundamentadas, interessa-me pensá-la com mais vagar tentando encontrar linhas de confluência e rebater pontos de discordância.

1. Não me parece correto pôr em oposição a legislação sobre a morte medicamente assistida (MMA) e a continua e persistente melhoria dos cuidados paliativos continuados (CPC's). Muito pelo contrário, a MMA é um último recurso para quem não se queira sujeitar a CPC's e não possa pôr fim à vida por meios próprios. Irei mesmo mais longe, a já existente legislação sobre o testamento vital resolve, quanto a mim, uma grande maioria dos potenciais casos, deixando de fora a liberdade individual de terminar a própria vida. Há assim a necessidade de complementar os CPC's com legislação sobre a MMA.

Aqui chegado, e parafraseando JM Jara, diria que toda a visão eutanasiófoba nega esta liberdade concreta da pessoa ao sobrevalorizar uma vontade externa ao individuo, baseada num direito mitificado de decidir sobre a vida e a morte de outrém com o beneplácito de uma religião multimilenar.

2. Já muito pelo contrário, concordo plenamente com a necessidade de suprir plenamente as insuficiências do nosso país em matéria de cuidados no fim de vida, investindo mais em recursos em cuidados paliativos, tanto institucionais como domiciliares, na eliminação das falhas de apoio social e médico para idosos e doentes, particularmente para os cidadãos mais desprotegidos, empobrecidos e isolados. E sim, é aqui que está o cerne da questão, mas não me compete a mim, nem a ninguém mais, decidir sobre a morte da minha companheira, pelo que importa legislar corretamente sobre a MMA.

Se pela sua experiência Jara entende que o desespero e a desesperança que levam ao suicídio, prenúncios de um pedido para «ser morto», são sintomas, quase sempre, de falhas assistenciais, importa legislar no sentido de suprir essas falhas e inibir esses casos. Impõe-se por isso legislar sobre a MMA por forma a definir cientificamente os aspetos técnicos e práticos, nada mais.

3. Também concordo que «a introdução de uma lei de eutanásia num país em que o processo não corresponde a uma necessidade palpável da sociedade, resulta em grande medida de um artefacto mediático de uma causa fraturante, [...], partidarizada e sobrepolitizada por via parlamentar.». Discordando já, plenamente, da acusação de fundamentação doutrinária, quanto a mim muito mais enraizada e ideologicamente encapotada na cultura religiosa dominante em que se baseia a divinização da vida por contraposição ao respeito pela vida.

4. Já sobre a restante argumentação pouco há a dizer. Contrapor o direito à vida constitucionalmente instituido com a ausência da morte como um direito lavrado nessa mesma constituição, não é argumento, é desespero em forma de oratória. Mas alguém imagina que, por lá não estar lavrado o direito à morte, alguém dela escapará? Apontar como potenciais eugenistas os partidários da MMA não passa de uma forma rebuscada de tentar esconder numa nuvem de fumo as incómodas companhias das igrejas, das direitas ultramontanas e das múmias vagais que, natural, religiosa e ideologicamente se me opoem do outro lado da barricada. Finalmente, momento baixo do argumentário, não posso deixar passar a indidiosa acusação sobre alegados "incidentes preocupantes" a que uma real argumentação teria obrigatoriamente de dar espaço e fundamento. Assim, como remoque de finalização, cheira a papão e lobo mau. @Refer&ncia

P.S: hoje 31 de Maio, caiu-me no facebroncas um artigo do público sobre «incidentes preocupantes». Seria a estes incidentes que JM Jara se referia?