2018/06/03

Colômbia mata 280 opositores nas vésperas das eleições

Petro disputa presidência contra um Duque uribista
(JornalAvante!, 2018/05/30)

No próximo dia 17 de Junho os colombianos voltam às urnas para escolher para presidente Iván Duque ou Gustavo Petro, que passaram à segunda volta depois do sufrágio de domingo, 27.

A escolha, mais do que entre dois candidatos, é entre dois projectos distintos: um que defende o retrocesso no acordo de paz alcançado entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo, convertidas no partido político Força Revolucionária Alternativa do Comum, e o governo colombiano liderado por Juan Manuel Santos; e aquele que assenta na viragem de página do conflito a construção de um país novo.


Os resultados finais do sufrágio presidencial divulgados pela entidade eleitoral colombiana, indicam que o candidato do Centro Democrático, Iván Duque, apoiado pelos ex-presidente Álvaro Uribe e Andrés Pastrana, todos defensores da guerra, obteve 7 567 361 votos, o equivalente a 39,1 por cento. Gustavo Petro, por seu lado, recolheu 4 850 397, que representam 25,1 por cento. Viu assim garantida a sua presença na segunda volta das presidenciais, agendadas para 17 de junho.

Para chegar a chefe de Estado e de governo, o ex-guerrilheiro (Movimento 19 de Abril) e ex-presidente da Câmara Municipal de Bogotá tem de derrotar um Duque uribista, o qual pode vir a granjear apoio dos eleitores que optaram por Gérman Vargas Lleras, um calculista de direita, ambicioso, que se demarcou habilmente do acordo de paz e que obteve nesta primeira volta 7,3 por cento dos boletins (1 407 487 milhões de votos), quedando-se em quarto lugar.

Por outro lado, Gustavo Petro terá de assegurar o apoio de amplos sectores democráticos que votaram em Sérgio Fajardo (23,7 por cento ou 4 588 299 votos) e em Humberto de la Calle (2,1 por cento ou 399 100 votos), ganhando-os para que não se abstenham e, ao invés, se manifestem nas urnas favoráveis à proposta central da sua campanha: avançar em paz.

Perigo maior

Praticamente desde a subscrição dos acordos de paz que a sua legitimidade e implementação estão a ser colocadas em causa, explicita ou implicitamente, por aqueles para quem o militarismo era a via a seguir independentemente das consequências que tal acarretasse para a Colômbia e os estratos populares colombianos. Não é por isso de estranhar que o tema domine a vida política colombiana e, sobretudo, que se observe quotidianamente ameaças à paz.

Ainda a semana passada o presidente Juan Manuel Santos reconheceu que, desde a assinatura dos acordos «foram assassinados 40 membros das FARC». No total, entre ex-guerrilheiros, activistas e dirigentes políticos, sindicais e sociais, e defensores dos direitos humanos e comunitários, a cifra ultrapassa os 280 mortos, revelou, também a semana passada, um relatório elaborado com o contributo de diversas entidades. Naturalmente, Santos descartou as responsabilidades que lhe atribuem a guerrilha e organizações de defesa da paz, mas a verdade é que só a muito custo avançam a integração dos antigos combatentes e o combate e desmantelamento do aparelho repressivo e ideológico que durante anos promoveu a liquidação de qualquer oposição ao regime colombiano.

O perigo maior na pacificação da Colômbia pode, no entanto, vir de fora do país. Ou melhor dizendo, ter sido convidado a entrar pelo ainda chefe de Estado e de governo. No sábado, 26, à margem de comentários sobre a adesão da Colômbia à OCDE, Juan Manuel Santos anunciou que iria formalizar dentro de dias o pedido de integração do país na NATO, na categoria de «sócio global». Conhecida a oposição dos EUA ao acordo de paz e a liderança destes na Aliança Atlântica (para já não falar no envolvimento das suas estruturas na liquidação de importantes dirigentes militares das então FARC-EP), tal não sugere facilidades na conquista de um futuro de progresso e paz na Colômbia e na região.

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