2018/07/06

É uma Questão de Meses

É cada vez mais uma questão de tempo, de pouco tempo, talvez meses, no máximo um ou dois anos.

Como "espetáculo" já poucos bilhetes vende.

Como "economia" emprega o quê? 300 pessoas? 350 em todo o país?

Como atração turística, já foi, já não tem peso.

O que é que lhes resta? Os alfaiates dos fatos? Os fardos de palha? A exibição da selvajaria?

Não foi agora, é em Janeiro. Não foi desta, é da próxima. Já ninguém no seu perfeito juizo quer ver imagens destas.

E eu sei, eu sei. Cada verão a mais são mais 40 ou 50 ou 60 animais torturados no altar da bestialidade deshumana e é por isso que cada dia que passa é o eternizar de um sadismo em que ninguém pediu autorização ao torturado.

Mas também porque, por principio, sou um forte opositor às proibições, raramente lhes encontro utilidade e, as mais das vezes, acabam a varrer para debaixo do tapete, realidades que se vão tornando ilegalmente apetecíveis, talvez o caminho que há a fazer seja «[...] o da efectiva responsabilização do Estado na promoção de uma relação mais saudável entre os animais e os seres humanos, acompanhada de uma acção pedagógica com o objectivo de sensibilizar os cidadãos, em particular as crianças e os jovens, para a importância do bem-estar animal e a sua efectiva protecção»

Agora, por favor, não lhe chamem «expressão da cultura-popular» nem apelem ao «respeito pela diversidade cultural». A selvajaria tauromáquica do cavaleiro, filho e neto de latifundiários, vestido de berloques a espetar ferros no dorso do animal não tem nada de popular e muito menos de cultural.

A bestialidade de queimar gatos para os fazer subir ao poste não é tradição, nem popular e muito menos cultura, é tão só o transbordar de um sadismo endémico de uma população a quem foi negada a música e o bailado e que ficou entregue á miséria permanente e ao purificador fogo sazonal  durante os anos e anos do fascismo salazarento.

A bestialidade de espetar ferros em mamiferos, para gáudio dos sádicos que já usaram as mesmas praças na repressão de operários e camponeses, não é tradição, nem popular e muito menos cultura, é tão só a passadeira vermelha para o sadismo endémico de uma casta que aplaude o sangue com as mesmas mãos com que resa ao sábado e distribui esmolas aos pobrezinhos, desde que estes fiquem longe da vista, porque essa gente não tem coração, só lhe ficou a raiva de ver o titere a cair da cadeira, em sentido literal e figurado.

Para terminar resta-me perguntar onde anda esse partido que se afirma de vanguarda? Vanguarda na defesa de que valores? Eu não o reconheço nesta defesa dos mais retrógrados gostos de uma minoria. Por onde anda esse partido a quem os cavaleiros de hoje voltariam a queimar os centros de trabalho que os pais e os avós deles queimaram há 45 anos? Faz-me falta um partido que consiga ser de facto uma vanguarda, um que reconheça a evolução onde ela está e a defenda com vigor.

Mas porque gosto de ter à mão de semear várias e diferentes perspetivas sobre estes temas, aparentemente mais distantes dos palcos onde se desenrola a decisiva luta de classes, deixo aqui alguns "alegados" argumentos com sabor a desculpas esfarrapadas. Só para futuras refer&ncias.





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Sobre a proposta do PAN que determina a abolição de corridas de touros em Portugal
(Intervenção de Ângela Moreira deputada do PCP na AR, 2018/07/06)

Sr. Presidente
Sras. e Srs. Deputados

Debatemos hoje o Projecto Lei apresentado pelo PAN que determina a abolição de corridas de touros. As corridas de touros e espectáculos tauromáquicos têm suscitado reiteradamente debates neste parlamento e na sociedade, pelo que reiteramos a posição que temos assumido.

O PCP respeita integralmente a sensibilidade de quem não está de acordo - ou rejeita mesmo - a tauromaquia tal como entende que se deve respeitar aquilo que as populações sentem como parte integrante da sua identidade cultural, as suas especificidades culturais, minoritárias ou maioritárias, que não atentem contra direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.

Respeitar a diversidade cultural implica reconhecer expressões culturais diferentes das próprias e reconhecer a universalidade dos direitos.

As expressões da cultura popular, como a generalidade dos elementos da cultura humana, não são imutáveis e são, elas próprias, produto da vida social. Umas perdem força e desaparecem, outras ganham-na e projectam-se. As tradições só por existirem ou terem existido não significa que devam ser mantidas, promovidas ou restabelecidas mas determinar pela lei a sua proibição já significa coisa diferente.

Ao pretender proibir aquilo que não reconhece como parte integrante da sua própria identidade cultural, o PAN não admite que haja outras culturas, identidades, tradições, sensibilidades que não as suas, só admite os seus próprios padrões culturais e morais e quer impô-los. Pretende impor aos outros a sua visão do mundo, se possível pela lei e pela força.

É necessário sublinhar este aspecto – da imposição da lei pela força – fazendo este debate não esquecendo o histórico da questão, nomeadamente recordando os incidentes que ocorreram em Barrancos no ano 2000 na sequência da tentativa de imposição pela força de uma proibição semelhante.

Aqueles incidentes demonstraram que a transformação de práticas que as populações sentem como parte da sua identidade cultural em problemas de ordem policial por via da proibição é apenas factor de mais graves conflitos e confrontos sociais.

A proibição daquelas práticas levou à sua ilegalidade e conduziu à repressão policial da população mas não permitiu que elas desaparecessem da matriz da sua cultura popular, da sua vivência comunitária colectiva.

Relembrando tudo isso, é necessário confrontar o PAN com aquilo que propõe e as suas respectivas consequências.

Ao pretender impor a proibição legal das corridas de touros, o PAN não se limita a tentar impor aquela visão cultural uniformizada e uniformizadora do mundo. Defendendo a proibição, o PAN defende as suas consequências, incluindo a abertura de um conflito directo com comunidades inteiras e, novamente, a tentativa de aplicação da lei pela força com a correspondente repressão das populações.

Sr. Presidente
Sras. e Srs. Deputados

O PCP reconhece o apego de muitos portugueses e de muitas comunidades do nosso país à tauromaquia que a consideram parte integrante da cultura popular, não ignorando, contudo, as preocupações e opiniões contrárias de outros sectores da sociedade. Tal divisão de opiniões não nos parece que possa ser resolvida pela via da proibição legal destas práticas.

Entendemos que o caminho que há a fazer é o do respeito pela diversidade cultural e o da efectiva responsabilização do Estado na promoção de uma relação mais saudável entre os animais e os seres humanos, acompanhada de uma acção pedagógica com o objectivo de sensibilizar os cidadãos, em particular as crianças e os jovens, para a importância do bem-estar animal e a sua efectiva protecção.

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Quando o PAN e o BE diziam «não» à proibição das touradas
(AbrilAbril, 2018/07/06)

Os eleitos autárquicos do BE e do PAN em Vila Franca de Xira, dois dos partidos que defenderam esta sexta-feira a proibição das corridas de touros em Portugal, dizem que esse não é o caminho

O vereador do BE na Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Carlos Patrão, escreveu, há um mês, um longo artigo na página da estrutura local do partido em que alerta para a posição que a bancada parlamentar acabou por tomar hoje.

O edil sustenta que «tentações de proibicionismos não costumam levar a bons caminhos» e exemplifica com a situação criada em Barrancos há cerca de 20 anos, com a participação activa do BE e que teve como resultado uma lei de excepção para que se mantivesse a tradição de touros de morte naquela localidade.

«Recordo que foram as campanhas contra os toiros de morte em Barrancos, na época com o apoio do BE, que levaram à sua legalização, em Barrancos e Monsaraz», escreve. Patrão desmente ainda a tese – repetida hoje pela deputada do seu partido Maria Manuel Rola – de que o público tauromáquico está em declínio, citando um aumento de 50% nas assistências na praça de touros de Vila Franca de Xira.

Nem o próprio PAN
No concelho onde hoje começam as festas do Colete Encarnado, nem o partido que propôs a proibição total e imediata das touradas é capaz de acompanhar tal desejo.

Em declarações à Lusa, em reacção à decisão da Junta de Freguesia de Alverca (maioria CDU) de deixar de promover garraiadas, Adélia Gominha sustentou que «o caminho nunca poderá passar por proibir os espectáculos tauromáquicos».

A eleita do PAN na Assembleia Municipal afirmou que «cabe à população conseguir encontrar alternativas para celebrar o passado rural, os touros e as lezírias».

Criminalização chumbada
A iniciativa do deputado do PAN foi chumbada ao início desta tarde, com os votos a favor do PEV e do PAN, enquanto as bancadas do PS, do PSD e do BE se dividiram entre votos a favor, abstenções e contra. O CDS-PP e o PCP votaram contra.

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